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Nassrudin e suas doces pimentas

Caro Aires,
Adoraria que você estivesse certo, que as guerras do mundo fossem apenas
um reflexo do que esta em nosso interior. Trabalhamos em nós mesmos e as
coisas se resolvem, pelo menos para nós mesmos. Será?
Tibet, Birmânia, Afeganistão, India são exemplos.
A crise ecológica que ameaça o planeta é outro.
A guerra e os conflitos estão dentro e fora,
mas não sei se as guerras que ocorrem no mundo
são um reflexo do interior.
Talvez não haja contradição entre o pessoal e o social.
Nesse momento da vida estou inclinado, a pensar as
contradições desde a pespectiva do coletivo, do social, da cultura.
Uma matriz socio-cultural para os conflitos interiores: As guerras,
a acumulação de bens, as relações entre os sexos, as tendências das religiões
monoteístas a manipulação das massas, a atitude com o corpo e esse mundo,
a educação das crianças, o uso da tecnologia para determinados fins, a desiguldade
social, a exclusão dos desvios das normas.
Muitos antropológos, que estudaram sociedades primitivas, observam que não
existem "conflitos interiores" como em nossa civilização.
Mesmo á experiência espiritual foi proibida, tendo que ser camuflada.
Só recentemente ela se tornou possível no mundo ocidental, de modo mais aberto.
Mas isso não significa deixar de Cuidar de Si.
Cuidar de si, esta numa pespectiva da individulidade, ainda assim
inclui pequenos grupos. É uma direção de multiplicidades de escolhas
de vida. Esses pequenos grupos, minoritários, sempre serviram de apoio
á busca individual. Grupos Sufis. Sangha budista. Escolas gregas. Comuna de Osho.
O novo homem em Osho, que ele chamava Zorba, o Buda, tentando juntar o apolínio
e o dionisíaco; á espiritualidade comtemplativa, a dança, o jôgo, o movimento criativo,
a convivência entre os sexos, adultos e crianças, entre os homens, trabalho lúdico.
Lembra Nietzsche(Zorba-Buda e Zaratustra), o que implicou num conhecimento do
processo civilizatório, em seus traços marcantes, incluindo o "ideal ascético", a retirada
do mundo, como busca de sanar os conflitos interiores. Acho que Osho, foi uma das exceções
na sua crítica á sociedade.
Na década de 60, simbolizado pelo ano de 68, proliferou essa tendência de uma "política
da consciência", trabalhar átraves de terapias, tradições espirituais, modos de vidas,
alternativas ao modo dominante da sociedade industrial, contracultura, Gurus, comunidades, etc.
Toda essa tendência perdura até os dias de hoje, a chamada "new age" se transformou na "cultura
do narcisismo" e as escolas de transformação da consciência, para seletos.
Por outro lado, outros tipos de "buscadores", creio que nada inocentes e nem puramente e
interessados no social, alguns participaram de maio de 68 e que lhes trouxe
mudanças no pensar e atuar; para citar alguns: Foucault, Deleuze, Guatarri, Laing, Capra,
Varela, Basaglia e outros. Alguns tentaram unir o pessoal e o social. Foucault, por exemplo, trouxe uma mudança significativa em diversos setores das instituições. Faça um doutorado
em alguns aspectos da obra de Foucault, seja no direito, na medicina, psiquiatria, história, etc
e permaneça a mesma pessoa, sem transformação de consciência, acho díficil, teria que ser
muito cínico; mas se pode cínico na busca espiritual também. O cuidado de si em Foucault é
pura espiritualidade, uma matriz ético-estética de múltiplas possibilidades. Também não é
para todo mundo. Gurdjieff também não era.
Tem um livro de Osho, o último que li, depois de muitos anos, chama "Guerra e Paz", seus
comentários sôbre o Bhagavad Gita, é belissímo, Arjuna esta num campo de batalha, onde
tem amigos, irmãos, parentes de ambos lados; ele vacila, não vê sentido naquela guerra,
quer abandonar o "campo de batalha social", dá mil argumentos; seu cocheiro Krisnha lhe
encoraja a permanecer na luta, uma Yoga da ação, chamam de Karma Yoga.
Eu não sabia, através de dados consistentes, que as sociedades humanas quase em sua
totalidade, por centenas de milhares de anos, eram pacíficas. É o contrário do que nos dizem.
Falam até dos "gens egoístas" para justificar o modo usual de ser e viver dos seres humanos.
Em Maturana não há contradições entre o pessoal e o social.





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